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Crônicas e Agudas

Marcelo Freda Soares


 

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O Vicente tinha me dito, quase previsto, eu também imaginava que um dia fosse acontecer. Estava definida a história do meu vizinho, o Fumaça. Tinha este apelido pelo cheiro que o apartamento, defronte ao meu, exalava. E estranho, há poucos dias, pela primeira vez, ele me convidara para entrar e conhecê-lo. Ali eu já havia morado ,e talvez por isso o choque tão grande. Fogão, fogareiro no centro da sala, móveis enormes imundos arrastados, piso destruído e arranhado. Sujeira, muita sujeira. Aparelhos novos desligados e empoeirados, como a tela da TV só visível no centro onde um pano ou a mão haviam se arrastado, como uma janela que se passa o cotovelo, suficiente para enxergar um pedaço de rua. Faltava piso na cozinha, lixo espalhado e um cheiro estranho, difícil de descrever, talvez mofo , cigarro, e tinta que intensamente se misturavam. Lembrei do capricho que havia dedicado , do tempo na conservação de quando ali morara, mas isso era o de menos. Pior foi ver,. comprovar, o estado da sua mente, não do imóvel. Só alguém muito doente estaria ali jogado. E nem percebíamos a extensão dessa patologia, porque de alguma forma ele ali a escondia. Agora, porque me abrira a porta? O que queria que soubesse? Garrafas de vodka como o vestígio, muitas, jogadas, vazias, emborcadas. Mas, se havia há alguns dias comprado um carro novo, um bonito e caro carro novo, que em nada combinava com aquilo que se via, o que realmente ele queria? Pelo carro, anunciara, trocaria de endereço, pois a garagem apertada atrapalhava. Ele não, os móveis pesados, grandes e socados, não causavam tal incômodo, mas a mim, e a qualquer outro, sufocava. Que fosse o carro, ou a tinta preparada ainda que num canto jogada, algo mudava naquela vida. Falou em namorada. Ele quase sessenta e ela uns quarenta e nada. Entusiasmado, dizia, achava que tinha se encontrado. Mandara limpar, se é que dava, o cafofo. Depois, entretanto, suspendeu a limpeza, recolheu-se e sumiu novamente. Acordei ontem quando batiam a a porta. Alguns amigos, e eram poucos, recém notaram. Cinco dias se passaram que ninguém mais o havia visto. Um telefonema, no período, a um deles solicitava: "me ajuda", só, mais nada. Aos socos insistiam e ninguém respondia. O carro na rua, novo, sereno úmido. Ninguém atende, a porta não abre, suspeita que ao fim da tarde se confirmara. Arrombou-se a porta por dentro trancada e ainda vivo balbuciava. Nada que se entendesse. Em casa, acamado, sereno, molhado. Cheiro de urina e álcool misturados ao odor indescritível que já sentira, e a respiração entrecortada e fraca. Depois de uma entrada confusa e atrapalhada, ao meu diagnóstico, levou-se ao hospital, ambulância e maca. Fizera minha parte, inútil, em poucos minutos o Fumaça se apagava. Ninguém por ele, algum amigo que melhor o conhecia, vida dúbia, disfarçada. Ninguém a informar bem quem ele era, pouco além de ser aposentado, viver em casa só, por si abandonado. Morava na minha porta, num espaço que conhecia, mas muito pouco eu sabia, a não ser da morte anunciada.


 


 

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