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Crônicas e Agudas

Marcelo Freda Soares


 

Congruência


  Quando me chamou de tio quase bati a porta. Um metro e oitenta, barba cerrada e um saco na mão, cheio de limões.


  -Tio é o seguinte..dá uma força que eu to precisando duns troco! Coisa pouca.


  -Olha, eu não tenho nada aqui, passa outra hora.


  -Qual é tiozinho, dá uma força, a parada é a seguinte eu to mal, peguei uma super gripe, tô tri inchado, não sinto merda de cheiro nenhum, e to precisando fazer a receitinha da vovó! Cinco real e fica legal! Qual é ?


  -Qual é? É a tua cara, te liga, pensa que não manjei , vais comprar cachaça, só falta me pedires uma porção de açúcar para a caipirinha!


  -Boa idéia tio, nem tinha pensado nisso não, olha a economia. Que aspirina nada, se ganhar açúcar ainda sobra mais para a cachaça. Vai lá tio, dois pila e deu. Legal!


  Atônito e pronto para correr o safado, fui surpreendido por mim. Meti a mão na carteira e dei o dinheiro, num inesperado prazer em transgredir meus próprios conceitos.


  Quando já saia satisfeito, ainda o chamei:
  -Volta aqui, espera que vou te alcançar o açúcar.
 


 

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