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Crônicas e Agudas

Marcelo Freda Soares


 

Escalada


  Mudamos.
  Casa de novo, nunca mais. Adeus cachorro, gato, pátio com salso. Quanto muito vou ficar com o passarinho.
  A coisa foi acontecendo aos poucos.
  Quando fizeram o murinho, até foi bom. Dava para sentar, e ficavamos de bobagem até bem tarde. Dai começaram a nos recolher cada vez mais cedo. Era perigoso ficar na frente quando escurecia. E foi ficando chato, muito chato. Chato mesmo foi quando ergueram as grades, nem sentar dava mais, e quando o portão teve que permanecer fechado o dia todo ficou sem graça andar de bicicleta. Até o Greg, nosso gato ficou preso na janela do quarto e nunca mais quis acordar minha irmã. O pátio ficou perigoso pois foi por ali que entraram as primeiras vezes. Fechar aquelas portas de ferro era um saco, tanta chave para acertar nos cadeados que era melhor nem abrir, e a sala acabava ficando meio escura. Complicou quando instalaram os alarmes por peça, sempre alguem esquecia de digitar o código na hora de ir ao banheiro na madrugada e a sirene diparava, fatal.
  Ontem entraram novamente. Nos rendemos. Vamos para um apartamento com porteiro 24 horas, circuito de tv e guarita na esquina. Só não vai ter gato nem cachorro, nem salso, tampouco pátio. Afinal cresci, meu pai também, cresceu na vida. Que vida!

 


 

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