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Crônicas e Agudas

Marcelo Freda Soares


 

 Papel de Fundo

O caderno começava com rascunhos incompletos, da mesma forma que termina. A idéia, falar de fatos interessantes sem idéia do que seria. Eu era muito jovem , o caderno, o desejo de expressão, as ferramentas, mas faltava algo mais do que a iniciativa. Mais de uma vez iniciava uma frase: "aquele céu cinza, de manhã permanente...". Consigo até perceber o que seria dito, mas era cedo o céu do amanhecer que chegava antes de seu sentido, da saudade e de um passado não vivido. Como experimentasse, embora ressentido, adolescente, aquele seria o papel de parede de minhas saudades, só que ali ainda as vivia, mais, aproveitava em pleno sol e luz de dia. Ali, no caderno, algo se preparava, como uma lembrança a ser germinada, e voltava, "aquele céu cinza que o dia inicia...". Hoje sim, nuvem que traz paz e a nostalgia, capricho de uma memória confusa e seletiva. De real, só uma vez que saíamos de uma festa, carnaval, de macacão, nascer do sol assistindo, o primeiro não enquadrado pela janela do meu quarto. Foi este o momento registrado, o cenário futuro de meus melhores pensamentos, hora fantasias ou grandes desejos. E tardou para que o ambiente real não mais me influenciasse. Antes uma janela bem fechada, o silêncio da madrugada ou a solidão absoluta eram passaporte obrigatório para este envolvimento. Céu permanente de amanhecer acinzentado traduzido em paz esta aqui, agora, e é dia, tem carro passando, música moderna em órbita, ruído, luz, bichos e a viagem já começa, nem anuncia e se manifesta, há menos histórias incompletas, rascunhos começam a ficar concluidos. O caderno era só o começo e cinza o pano de fundo, o amanhecer de uma narrativa que só agora esta sendo escrita.


 

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