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Crônicas e Agudas

Marcelo Freda Soares


 

Barbeiragem


  Não imagina o alívio ao ver o carro do Muzzilo ocupando o lugar dele na garagem, consertado, brilhando. Desde há dois meses, quando trombei no estacionamento, vinha tendo dificuldade em transitar pelo prédio. Não foi fácil naquela tarde de sábado, logo após ao almoço, ter que bater na porta, levantá-lo da sesta e dizer: "Desculpa, mas demoli o teu carro." Sendo ele corretor de seguro, apesar de não ter aceitado sua proposta e ter feito o contrato direto com o banco, achei que seria mais fácil, entenderia. Engano. A agilidade da minha seguradora foi só em enviar um e-mail, menos de dez minutos depois do telefonema, informando: "Estamos cientes do sinistro, aguarde nosso contato." Sinistro foi o silêncio que se sucedeu. Nenhum contato em dois, três ou quatro dias. Munido dos documentos necessários falei algumas vezes com computadores, ou atendentes, que não sei se também não eram computadores, tudo impessoal e por telefone."Fique tranqüilo, tudo correra bem!"
  Nada corria, e pelo sexto ou sétimo dia passei a ser aguardado na garagem pela vítima, a esta altura nervoso o suficiente para me tornar uma também.
  Quase dez dias e enfim vieram fotografar o meu carro. Tive que ser grosseiro quando o perito atreveu-se a perguntar como tinha conseguido tal proeza. Ele que fizesse seu trabalho, minha apólice, em dia, estava paga, e bem paga. O outro em quinze dias de oficina não tinha sequer recebido os flashs.
  Marcação cerrada, passei a entrar e sair de casa escondido. Guardava o carro na madrugada e antes de amanhecer o tirava da garagem. Não adiantou muito, o sujeito passivo do ilícito, totalmente impaciente, era avisado pelo silenciador furado e por mais de uma vez esperou-me nas escadas.
  Hoje estou tranqüilo, e bem mais cuidadoso. Vale o aviso grampeado na nova proposta de seguro sobre minha mesa: "Renova comigo, amigo. Continuo teu vizinho, de box, nunca se sabe. Do teu novo corretor, Muzzilo."


 


 

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