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Barbeiragem
Não imagina o alívio ao ver o carro do Muzzilo ocupando o lugar dele na
garagem, consertado, brilhando. Desde há dois meses, quando trombei no
estacionamento, vinha tendo dificuldade em transitar pelo prédio. Não foi
fácil naquela tarde de sábado, logo após ao almoço, ter que bater na porta,
levantá-lo da sesta e dizer: "Desculpa, mas demoli o teu carro." Sendo ele
corretor de seguro, apesar de não ter aceitado sua proposta e ter feito o
contrato direto com o banco, achei que seria mais fácil, entenderia. Engano.
A agilidade da minha seguradora foi só em enviar um e-mail, menos de dez
minutos depois do telefonema, informando: "Estamos cientes do sinistro,
aguarde nosso contato." Sinistro foi o silêncio que se sucedeu. Nenhum
contato em dois, três ou quatro dias. Munido dos documentos necessários
falei algumas vezes com computadores, ou atendentes, que não sei se também
não eram computadores, tudo impessoal e por telefone."Fique tranqüilo, tudo
correra bem!"
Nada corria, e pelo sexto ou sétimo dia passei a ser aguardado na garagem
pela vítima, a esta altura nervoso o suficiente para me tornar uma também.
Quase dez dias e enfim vieram fotografar o meu carro. Tive que ser
grosseiro quando o perito atreveu-se a perguntar como tinha conseguido tal
proeza. Ele que fizesse seu trabalho, minha apólice, em dia, estava paga, e
bem paga. O outro em quinze dias de oficina não tinha sequer recebido os
flashs.
Marcação cerrada, passei a entrar e sair de casa escondido. Guardava o
carro na madrugada e antes de amanhecer o tirava da garagem. Não adiantou
muito, o sujeito passivo do ilícito, totalmente impaciente, era avisado pelo
silenciador furado e por mais de uma vez esperou-me nas escadas.
Hoje estou tranqüilo, e bem mais cuidadoso. Vale o aviso grampeado na
nova proposta de seguro sobre minha mesa: "Renova comigo, amigo. Continuo
teu vizinho, de box, nunca se sabe. Do teu novo corretor, Muzzilo."
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